Apagão do último dia 10 de novembro deixa dúvidas quanto à confiabilidade do sistema elétrico brasileiro, e traz a tona necessidades para os próximos anos.
No último dia 10 de novembro o Brasil voltou a ser assustado novamente por um fantasma que se imaginava já espantado. O blecaute que atingiu pelo menos 10 Estados brasileiros, em diferentes proporções, por mais de 6 horas, trouxe dúvidas sobre o SIN (Sistema Interligado Nacional), e nos fez refletir sobre o modelo energético atualmente utilizado. Após os “apagões” de 1999 e 2001, que levaram ao racionamento de energia no País, organismos e planejamentos foram elaborados, especial destaque a criação do Novo Modelo do Setor Elétrico Brasileiro em 2003, com a instituição de entidades como a Empresa de Pesquisa Energética, Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, entre outros, que estabeleceram e delinearam as urgentes adequações no sistema elétrico brasileiro, frente aos recentes acontecimentos na época. Nos anos que seguiram o Brasil sem dúvida evolui em geração, saltando de 72 GW de capacidade em 2000, para 108 GW de capacidade de geração em 2009. Entretanto, e conforme pudemos sentir no último dia 10 de novembro, apenas gerar energia elétrica não basta. Não basta, pois essa energia tem de chegar até a carga, o usuário final, e para isso se faz necessário um complexo sistema composto por quilômetros de linhas de transmissão, subestações e linhas de distribuição. E foi exatamente em algum ponto desse complexo, que conecta a hidrelétrica de Itaipú ao SIN, que acabou por falhar e deixar às escuras milhões de brasileiros. Sem dúvida é importante buscar as causas do problema vivido há pouco, para então fortalecer as retaguardas e sistemas de segurança do SIN, mas tão ou mais importante que isso é estabelecer uma visão estratégica de como conduzi-lo daqui por diante. Essa visão deve se embasar em 2 pilares básicos e paralelos: eficiência energética e geração distribuída. Ou seja, as responsabilidades daqui por diante são públicas e privadas, político/governamentais e do próprio cidadão. Surgirão, além dos que já existem, novos incentivos e tecnologias que busquem a racionalização do uso, a diminuição e gestão adequada do consumo, pilar aqui tratado como eficiência energética, quer dizer, fomento governamental, de ordem fiscal e tributária, para que o consumidor consiga implementar e ativar ações de diminuição do uso de energia elétrica. Porém, cabe ao consumidor se engajar nessa tarefa, além do setor governamental. Essa tarefa se faz importante, pois apesar de termos hoje sobra na geração, em uma perspectiva futura vemos essa relação carga x geração diminuindo, caindo de uma diferença de 23% em 2009, para 18% em 2012, ou seja, a sobra está diminuindo, razão pela qual o mais óbvio e econômico e racionalizar.
Soma-se ainda o segundo pilar, a geração distribuída, pois como vimos, apesar de existir geração, tivemos o problema em conduzi-la até o consumidor. Assim, geração distribuída é o nome dado a geração próxima a carga. Veremos em breve indústrias com torres de geração eólica ao seu lado, complexos de geração fotovoltaica em meio ao campo, aproveitamento de geração por biomassa, em especial nos pólos de liberação desses resíduos, como cavaco de madeira, casca de arroz, cana-de-açúcar, etc. Geração distribuída, além de aumentar a capacidade de geração do sistema, melhora consideravelmente a segurança e eficiência do mesmo, pois teremos a diminuição de todo o complexo de transmissão dessa energia, que é fonte de perdas e suscetível a riscos de mais diversas ordens. Além disso, a geração distribuída será um redutor de custos da energia elétrica, pois trará a fonte para mais próximo a carga, reduzindo investimentos em transmissão de energia. Enfim, teremos uma mudança crítica de pensamento do setor, com alterações drásticas em como encará-lo para viabilizar o crescimento econômico do País. Está visto que gerar apenas não basta, é preciso trabalhar de forma mais intensa na racionalização do uso, e gerar energia elétrica mais próximo dos centros de carga. |